quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Superlativos

Quando eu andava na escola e a Gramática ainda não era uma “arma de arremesso” para causar traumas aos alunos, estudávamos com atenção os Comparativos e os Superlativos. Mais: éramos prevenidos para a circunstância de estes últimos deverem ser utilizados com parcimónia, sob pena de se desvalorizarem e banalizarem. O que tem isto a ver com o futebol e, concretamente, com o clássico – pouco clássico – do último domingo? Simples: Jorge Jesus está agora a pagar (e parece cada vez mais certo que o fará com juros elevados) a fatura tresloucada dos encómios superlativos que, por causa de uma época meritória e categórica como o Benfica há muito não vivia, foram depositando na sua conta. Sempre que o faziam, subiam a fasquia. A cada nova palmada nas costas, o técnico – um respeitável “self made man”, que subiu a pulso e chegou onde merecia – era empurrado para maiores responsabilidades. Embevecido, a vingar os anos de penumbra, deixava-se empurrar e discursava em conformidade com o que nele queriam ver. Agora, com a humilhação de domingo (que vale tanto pelo resultado como pela exibição, ou falta dela), Jesus é despojado dos Superlativos e atirado para o odioso terreno dos Comparativos. Eis a imagem perfeita do futebol contemporâneo, célere a criar ídolos, veloz a destruí-los.
Começam as exigências de “serviços mínimos”. Revelam-se azias, até agora insuspeitas, no balneário. Contestam-se as escolhas, nem por isso diferentes de outras ocasiões críticas (Liverpool, claro). Ridicularizam-se as palavras. Ora, o que se passou no Dragão é, afinal, muito simples e ultrapassa as colocações suicidas de David Luiz e Fábio Coentrão ou as exclusões de Saviola e Airton: o campeão entrou a jogar exclusivamente em função do adversário. Tanto assim que se contam pelos dedos de uma só mão (não é ironia…) os remates que fez. Ao proceder desta forma, ressuscitou o fantasma que viveu instalado por mais de uma década para os lados da Luz – chama-se FC Porto. Quantas vezes se viu o Benfica entrar já em perda psicológica (leia-se “medo”) para os jogos com o rival do Norte? E quantos anos foram precisos para que esse complexo se desvanecesse? Agora, nem era preciso dar mais esse trunfo a uma equipa que se mostrava poderosa e compacta. Mas o Benfica ainda ofereceu mais essa vantagem de mão dada. Falta apurar se voltou à estaca zero e à tremideira.
Daqui em diante, pede-se mais trabalho e menos garganta. Mesmo sem título, ainda há muita margem para minorar os estragos.
Já agora, superlativo no domingo, só mesmo o FC Porto. E André Villas-Boas.
NOTA – Rogério Alves praticou, fora de horas, um dos seus desportos favoritos: a verborreia. Mas há quem não durma: nem Deus, nem Maniche, nem Targino. (João Gobern, Record)

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